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segunda-feira, 29 de junho de 2015

VOCÊ ACREDITA NO BRASIL?

                                                             


A princípio intitulei este artigo com uma afirmação: “Eu acredito no Brasil”. 
Logo após, entendi que este título revelador da minha opinião poderia influenciar os que, por espírito de sistema, se posicionam contrários a tudo, não importando do que se trate. 
Sendo assim, achei melhor transferir o trabalho de pensar aos que possam ler este texto, perguntando a eles: “Você acredita no Brasil?”
Humberto de Campos, em crônica do seu livro póstumo Reminiscências, editado em 1935, afirma: “Voltaire costumava dizer que a política e a guerra eram as duas missões naturais do homem na Terra”. Realmente, a política e as guerras andam muito juntas.
Mas, no caso do Brasil e seu povo, a sua missão natural vai muito além e, se passa pela política, não passa pela guerra. 

É certo que a história do nosso país pode narrar periódicas agitações sociais, conflitos civis e golpes de natureza política, além de alguns embates bélicos externos, porém, nada por nossa exclusiva iniciativa. Tanto que a expressão “sem derramar uma gota de sangue” é frequentemente utilizada em muitos momentos em que se queira referir às conquistas que o nosso povo tenha obtido, neste ou naquele campo.
Se fizermos um esforço para esquecer o que passou, desde a sua descoberta no ano de 1.500, e pensarmos no futuro, podemos acreditar no nosso país e no seu povo? Há motivos para isso?
Provavelmente o materialista, o incrédulo e o pessimista não encontrarão razões para acreditar, pois estes pensam tudo no curto prazo. São movidos a egoísmo. 

Mas, para o espiritualista sensato, o crente racional, o patriota otimista, acostumados a projetar os seus sonhos para o futuro, trabalhando o presente, há sim por que cultivar grandes expectativas.
O Brasil é um país com grande território, e novamente fazendo alusão ao escritor Humberto de Campos, os seus contornos geográficos lembram o desenho de um coração – o coração do mundo –, o que nos leva a pensar nas coisas do sentimento.
O brasileiro é sentimental por excelência. Dizem também que é solidário, fraterno, acolhedor, expansivo e alegre. Isso não é pouco. 

Se em muitas situações não tem se comportado como seria desejável, é por fazer parte de um povo ainda jovem, de caráter não totalmente amadurecido, embora pujante; e por estar ainda buscando a sua identidade, embora já tenha feito reais progressos.
Na verdade, somos bem-vistos pelos estrangeiros. E muitos países e seus governos sabem muito bem o que representa o Brasil no concerto dos povos, e o que representará em futuro breve.
Basta dizer que além das terras imensas, já citadas, todas férteis, o seu subsolo é riquíssimo em minérios sólidos e líquidos. 

Há água também, muita água doce por lá. Suas florestas exuberantes e vastas abrigam fauna e flora invejáveis e cobiçadas. 
Há muito sol, belezas naturais. Sua cultura e sua arte são respeitadas, lá fora. E o seu povo, apesar de moço, é inteligente, trabalhador, religioso, alegre. E pacífico. 
Não devemos nos alarmar com os índices atuais de indisciplina e incivilidade. 
Apesar de preocupantes, eles são transitórios.
Se olharmos para a nossa condição de cem anos atrás, teremos motivos para comemorar. 

Somos outros, hoje. E seremos cada vez melhores à medida que amadurecermos como povo e como nação.
Não acreditamos na guerra. Não está no nosso gene, nem tampouco na formação moral da nossa gente esse tipo de preocupação. 

E a política (ou os políticos) que tem irritado tanto os brasileiros, se renovará com a renovação de cada um destes. 
Os nossos hábitos e costumes já são bem melhores hoje do que no passado. 
E, se Voltaire estiver certo, a política sendo intrínseca à missão humana na Terra, o homem se transformando a cada dia, ela o acompanhará nos seus melhores esforços.

  *Cláudio Bueno da Silva.


                                                                      

                                           

sábado, 27 de junho de 2015

USE A PORTA DO OUTRO LADO

Em entrevista dada por um médico famoso, disse ele que muita gente tem um nível de exigência absurdo em relação à vida, querendo que absolutamente tudo dê certo, e que, às vezes, por aborrecimentos mínimos, é capaz de passar um dia inteiro de cara amarrada.
E aí ele deu um exemplo trivial, que acontece todo dia na vida da gente…
É quando um vizinho estaciona o carro muito encostado ao seu na garagem (ou pode ser na vaga do estacionamento do shopping). 
Em vez de simplesmente entrar pela outra porta, sair com o carro e tratar da sua vida, você bufa, pragueja, esperneia e estraga o que resta do seu dia.
Eu acho que esta história de dois carros alinhados, impedindo a abertura da porta do motorista, é um bom exemplo do que torna a vida de algumas pessoas melhor, e de outras, pior.
Tem gente que tem a vida muito parecida com a de seus amigos, mas não entende por que eles parecem ser tão mais felizes.
Será que nada dá errado para eles? Dá aos montes. 
Só que, para eles, entrar pela porta do lado, uma vez ou outra, não faz a menor diferença.
O que não falta neste mundo é gente que se acha o último biscoito do pacote. Que “audácia” contrariá-los!
São aqueles que nunca ouviram falar em saídas de emergência: fincam o pé, compram briga e não deixam barato.
Alguém aí falou em complexo de perseguição? Justamente. O mundo versus eles.
Eu entro muito pela outra porta, e às vezes saio por ela também. É incômodo, tem um freio de mão no meio do caminho, mas é um problema solúvel. E como esse, a maioria dos nossos problemões podem ser resolvidos assim, rapidinho. Basta um telefonema, um e-mail, um pedido de desculpas, um deixar barato.
Eu ando deixando de graça… Para ser sincero, vinte e quatro horas têm sido pouco para tudo o que eu tenho que fazer, então não vou perder ainda mais tempo ficando mal-humorado.
Se eu procurar, vou encontrar dezenas de situações irritantes e gente idem; pilhas de pessoas que vão atrasar meu dia. Então eu uso a “porta do lado” e vou tratar do que é importante de fato.
Eis a chave do mistério, a fórmula da felicidade, o elixir do bom humor, a razão por que parece que tão pouca coisa na vida dos outros dá errado. ”
Quando os desacertos da vida ameaçarem o seu bom humor, não estrague o seu dia… Use a porta do lado e mantenha a sua harmonia.
Lembre-se, o humor é contagiante – para o bem e para o mal – portanto, sorria, e contagie todos ao seu redor com a sua alegria.
A “Porta do lado” pode ser uma boa entrada ou uma boa saída… Experimente!
                                                      

quinta-feira, 25 de junho de 2015

CENAS DA RUA, VIVÊNCIAS DA VIDA

                                                        


À porta de  uma loja de eletrodomésticos, aguardava minha esposa que conversava com o vendedor sobre as condições de compra de um objeto que ela precisava.
            Um adolescente, acompanhando os pais, que também faziam compra na loja, tomava refrigerante em um copo plástico, descartável.
            Saboreou o líquido até as últimas gotas, depois se aproximou da porta e atirou o copo em direção à rua, onde, naquele momento, passavam veículos.
            Próximo dele havia um cesto para coletar lixo.
            Passados alguns dias, vou caminhando pela calçada. 

Alguns passos adiante seguem duas jovens, com o característico jaleco branco de quem trabalha na área da saúde.
            As duas pararam. Uma delas abaixou-se pegou um copo de plástico, vazio, com o característico símbolo de famosa empresa multinacional de refrigerantes, que estava jogado no chão.
            Continuaram a caminhada e eu, seguindo, o meu rumo normal, atrás e observando...
            Mais alguns quarteirões e divisaram um coletor público de lixo.
            A que segurava o copo aproximou-se e depositou o entulho plástico no lugar adequado e seguiram alegremente conversando.
            Este episódio, mentalmente, ligou-me com o outro. Aquele do jovem na loja.
            No mesmo instante refleti: cenas da rua, vivências da vida.
            De uns tempos a esta parte os princípios de educação e ecologia vêm sendo divulgados pela escola, pela televisão, por revistas e jornais.
            É quase impossível que uma pessoa vivendo em um lar, frequentando uma escola, assistindo  programas na televisão não saiba que não se deve atirar um copo plástico na rua, ainda mais em direção a veículos transitando pelo local.
            É quase absoluta a certeza de que o jovem sabia que seu ato transgredia as normas de educação e de respeito ao meio ambiente.
            Por algum motivo a formas de educação não estavam funcionando para o jovem.
            Por outro lado, as jovens profissionais, que entraram em uma clínica de fisioterapia, onde, por certo, trabalhavam, “perderam” um momento para atender ao interesse da coletividade e procuraram sanar o ato de outro deseducado que havia lançado outro copo de plástico na vida pública.
            Eram jovens educadas e conscientes do respeito ecológico pelo planeta Terra, que se reflete sim no, aparente, simples ato de recolher um lixo plástico da rua.
            Só para refletirmos nessa contaminação: copo plástico  leva de 200 a 450 anos para se desintegrar; lata de alumínio: 100 a 500 anos; garrafa de plástico: mais de 500 anos; pilhas e baterias: 100 a 500 anos, com grave contaminação no solo e na água que ele contem.
            Portanto, o amor ao próximo, o amor à vida, o amor ao planeta depende tanto de providências tão simples como a de destinar o lixo orgânico e inorgânico ao lugar certo quanto aos grandes atos de preservação ambiental desse organismo vivo que é a nossa casa planetária.
            A Doutrina Espírita, expressa em O  Livro dos Espíritos (1), em sua Terceira Parte – Das Leis Morais, nos capítulos: V -  Da Lei da Conservação e VI – Da Lei da Destruição, conceitos sobre a necessidade de atos de  preservação da vida e do planeta.
            Destarte, as cenas de rua relatadas se projetam em vivências comportamentais para a conservação ou destruição da vida e do nosso admirável e maravilhoso planeta.
            Vamos refletir:
            Estamos atirando copos plásticos na rua ou estamos colhendo os jogados e depositando-os, com amor, nos recipientes de preservação da Vida?

*Bibliografia: O Livro dos Espíritos, Allan Kardec.


                                                             

terça-feira, 23 de junho de 2015

A SUAVE ARTE DA BÊNÇÃO


                                                          


Cada pensamento que temos e cada ação que empreendemos, torna-se parte da energia coletiva do planeta.

Quando usamos a nossa energia para levar luz ao mundo, ela se associa à luz trazida por outros para dispersar a escuridão.

Abençoar significa desejar incondicionalmente e da mais profunda câmara do seu coração, um bem ilimitado para outros.

Abençoar é reconhecer a beleza onipresente e universal, oculta dos olhos materiais. 

É ativar a lei da atração, que à distância, alcança o universo.

Ao fazer da Suave Arte da Bênção a sua prática espiritual diária, você aprende a enviar pensamentos e sentimentos e a curar outros.

Isto o capacitará a difundir uma atmosfera de bondade, paz e cura onde quer que você vá.

A atrair mais bondade, alegria e amor para a sua própria vida e para as vidas daqueles que estão a sua volta.

A abrir possibilidades de cura nos corações daqueles controlados pela ganância, pelo egoísmo e pelo medo. A experienciar um maior sentimento de Unidade com toda a vida.

A enaltecer a vida e o crescimento de todos os reinos da natureza – humano, animal, plantas e mineral.

Abençoar é o meio perfeito de desenvolver uma consciência constantemente centrada no amor.

Cada dia é uma bênção, e a cada momento há muitas coisas pelas quais podemos ser gratos.

O mundo se abre para nós quando vivemos em um espaço de gratidão.



Quando abençoamos, quando pedimos à Deus, pedimos a partir da fonte de toda a bondade.

Nós podemos compartilhar nossas experiências e compreensão com os outros, não de um espaço de condescendência, mas de conexão.

Quando escolhemos constantemente ser gratos, nós notamos que cada respiração é um milagre e cada sorriso se torna uma dádiva.

Nós começamos a compreender que as dificuldades são também lições inestimáveis.

O sol está sempre brilhando para nós quando somos gratos, ainda que ele esteja oculto atrás das nuvens em um dia chuvoso.

Viva em um estado de gratidão.

A bênção da gratidão nos permite propagar a abundância, porque esta é a energia que emana de nossos seres. Porque o mundo sempre reflete para nós o que incorporamos.

Bênçãos adicionais inevitavelmente fluem em nosso caminho.

Elas nos dão até mais pelo que sermos gratos.

O Universo nos quer enviar bênçãos em abundância.

Quanto mais apreciamos a vida, mais a vida nos aprecia e nos concede mais prosperidade.


Oferecer uma bênção não é uma tarefa difícil.

Nossos dias estão cheios de oportunidades intermináveis para praticarmos a arte da bênção.

Uma bênção pode ser tão simples que muito freqüentemente nós tomamos por certo o ato de abençoar.

A própria vida trabalha através de nós.

As bênçãos, antigas ou modernas, é uma parte importante de nossa fé na vida.

Uma bênção é a ponte entre o céu e a terra.

A transmissão do divino que ocorre quando abençoamos é verdadeiramente um momento sagrado.

Nós somos os portadores dos sonhos e dos desejos que podem ter se originado em gerações anteriores.

Nunca deixe passar um dia, de alguma maneira, que não evoquemos a visão do bem.

A arte da abundância chama a atenção para as pequenas bênçãos: para aquilo que podemos fazer: descobrirmos as alegrias e os tesouros esquecidos da simples vida diária.

Possamos apreciar e nos lembrarmos da Esquecida Arte da Bênção.

Permita que o Amor flua em sua vida.

As Bênçãos são dons espirituais para compartilhar com outros.

Que você possa ser abundantemente abençoado.


SHALOM.
                                                                         
                                     

domingo, 21 de junho de 2015

SERENIDADE E SABEDORIA

                                                                   



Todo homem sábio é sereno.

A serenidade é conquista que se consegue com o esforço pessoal, passo a passo.

Pequenos desafios que são superados; irritações que conseguimos controlar; desajustes emocionais corrigidos; vontade bem direcionada; ambição freada, são todas experiências para a aquisição da serenidade.

Um Espírito sereno é aquele que se encontrou consigo próprio, sabendo exatamente o que deseja da vida.

A serenidade harmoniza, exteriorizando-se de forma agradável para os que estão à volta. 

Inspira confiança, acalma e propõe afeição.

O homem que consegue ser sereno já venceu grande parte da luta.

Assim, não permitamos que nenhuma agressão exterior nos perturbe, causando irritação e desequilíbrio.

Procuremos manter a serenidade em todas as realizações.

A nossa paz é moeda arduamente conquistada, que não devemos atirar fora por motivos irrelevantes.

Os tesouros reais, de alto valor, são aqueles de ordem íntima, que ninguém toma, jamais se perdem, e sempre seguem com a pessoa.

Quando estejamos diante de alguém que engana, traindo a nossa confiança, o nosso ideal, procuremos nos manter serenos.

O enganador é quem deve estar inquieto, e não a sua vítima.

Em nosso círculo familiar ou social, sempre iremos nos defrontar com pessoas perturbadas, confusas e agressivas.

Não nos desgastemos com elas, competindo nas faixas de desequilíbrio em que se fixam. 

Elas são um teste para a nossa paciência e serenidade.

Procuremos nos manter sempre em contato com o Alto, através da prece, buscando continuamente compreender as situações que a vida nos apresenta, enxergando-as como oportunidades, e não como crises.

Quem consegue manter a serenidade diante das pequenas dificuldades que surgem, vence mais facilmente os grandes desafios.

O homem sereno consegue viver mais feliz, pois nada parece afligi-lo a ponto de fazê-lo desistir dos sonhos que traçou para si mesmo.

O homem sereno jamais busca resolver suas questões através de comportamento violento e por isso há mais paz em sua vida.



A serenidade que Jesus mantinha em Seu coração era algo sublime.

Poucos eram aqueles que não se emocionavam em Sua presença, pois essa virtude se exteriorizava pelo olhar tranquilo e profundo; irradiava pelo semblante carinhoso e pacífico; emanava pelas palavras ditas com tanto amor, que pareciam beijar e abraçar aqueles que as ouviam.

Poucos foram aqueles que não tiveram seus olhares inundados pelas lágrimas da emoção, ao estarem na companhia do Espírito mais sereno que já esteve na face da Terra.

Experimentando as mais cruas acusações sem uma palavra de defesa, na mais dura soledade, sem uma só exigência, Jesus deu o testemunho mais pesado através da agonia pelo amor.

Sem qualquer constrangimento, se manteve em serenidade admirável, para ensinar que a dinâmica da vitória sobre si mesmo é resultante do auto descobrimento e da aplicação das próprias forças no exercício do perdão incondicional e a situações, pessoas e coisas da rota evolutiva.


 
*Do livro Episódios diários e parágrafos finais do cap.19, do livro Florações evangélicas, ambos pelo Espírito Joanna de Ângelis, psicografia de Divaldo Pereira Franco.

                                                             


sexta-feira, 19 de junho de 2015

O BURRO DE CARGA

                                                                 

No tempo em que não havia automóveis, na cocheira de famoso palácio real um burro de carga curtia imensa amargura, em vista das pilhérias e remoques dos companheiros de apartamento.
       Reparando-lhe o pelo maltratado, as fundas cicatrizes do lombo e a cabeça tristonha e humilde, aproximou-se formoso cavalo árabe, que se fizera detentor de muitos prêmios, e disse, orgulhoso:


- Triste sina a que recebeste! Não Invejas minha posição nas corridas? Sou acariciado por mãos de princesas e elogiado pela palavra dos reis!

- Pudera! - exclamou um potro de fina origem inglesa - como conseguirá um burro entender o brilho das apostas e o gosto da caça?

     O infortunado animal recebia os sarcasmos, resignadamente.


     Outro soberbo cavalo, de procedência húngara, entrou no assunto e comentou:

- Há dez anos, quando me ausentei de pastagem vizinha, vi este miserável sofrendo rudemente nas mãos de bruto amansador. 
É tão covarde que não chegava a reagir, nem mesmo com um coice. 
Não nasceu senão para carga e pancadas. É vergonhoso suportar-lhe a companhia.

   Nisto, admirável jumento espanhol acercou-se do grupo, e acentuou sem piedade:

- Lastimo reconhecer neste burro um parente próximo. 
É animal desonrado, fraco, inútil... Não sabe viver senão sob pesadas disciplinas. 
Ignora o aprumo da dignidade pessoal e desconhece o amor-próprio. 
Aceito os deveres que me competem até o justo limite; mas, se me constrangem a ultrapassar as obrigações, recuso-me à obediência, pinoteio e sou capaz de matar.


   As observações insultuosas não haviam terminado, quando o rei penetrou o recinto, em companhia do chefe das cavalariças.

- Preciso de um animal para serviço de grande responsabilidade - informou o monarca, -animal dócil e educado, que mereça absoluta confiança.

            O empregado perguntou:

     Não prefere o árabe, Majestade?

- Não, não - falou o soberano -, é muito altivo e só serve para corridas em festejos oficiais sem maior importância.

- Não quer o potro inglês?

- De modo algum. E’ muito irrequieto e não vai além das extravagâncias da caça.

- Não deseja o húngaro?

- Não, não. É bravio, sem qualquer educação. É apenas um pastor de rebanho.

- O jumento serviria? - insistiu o servidor atencioso.

- De maneira nenhuma. É manhoso e não merece confiança.

   Decorridos alguns instantes de silêncio, o soberano indagou:

- Onde está o meu burro de carga?


   O chefe das cocheiras indicou-o, entre os demais.


   O próprio rei puxou-o carinhosamente para fora, mandou ajaezá-lo com as armas resplandecentes de sua Casa e confiou-lhe o filho, ainda criança, para longa viagem.


  Assim também acontece na vida. Em todas as ocasiões, temos sempre grande número de amigos, de conhecidos e companheiros, mas somente nos prestam serviços de utilidade real aqueles que já aprenderam a suportar, servir e sofrer, sem cogitar de si mesmos.


*Xavier, Francisco Cândido. Da obra: Idéias e Ilustrações.
Ditado pelo Espírito Neio Lúcio.

                                                    




quarta-feira, 17 de junho de 2015

FUGAS PELA CULPA

                                                                                                                                          



Comumente ouve-se justificativa para alguém escusar-se ao serviço de socorro ao próximo, como, por exemplo, a alegação de que não é perfeito e, portanto, não possui as condições exigíveis para o exercício das ações de enobrecimento.

Muitos indivíduos alegam que carregam muitas culpas conscientes quanto inconscientes de gravames que foram perpetrados e que os atiraram no poço da amargura, tomando-os indignos de realizações elevadas.

Seria de indagar-se, quais as qualidades exigíveis para a prática do amor nas suas múltiplas expressões sob a inspiração do anjo da caridade?

Oferecer-se um copo com água fria ao sedento, doar-se uma côdea de pão ao esfaimado, um vaso de leite ao enfermo, modesta moeda ao necessitado, um gesto de compaixão, uma palavra gentil, um aperto de mão, são tão espontâneos fenômenos humanos, que não exigem elevados sentimentos morais, bastando somente o desejar-se auxiliar...

São tantas as formas de exteriorizar gentileza e bondade, que não se toma indispensável uma situação espiritual superior para apresentá-las.

Através da ação fraterna e natural adquirem-se os títulos de enobrecimento moral, superando-se as tendências perniciosas que escravizam o indivíduo, mantendo-o nas paixões dissolventes, e que passam a diluir-se, quando ocorrem os atos de amor, cedendo os espaços mórbidos à beneficência.

Certamente, a culpa é algoz impiedoso que se esculpe na consciência e, à semelhança do ácido corroi as vibras emocionais da sua vítima, enquanto é conservada.

Por essa razão, deve ser racionalizada de maneira tranquila e diluída mediante as aplicações dos valiosos dissolventes do amor em forma de edificação de outras vidas.

Quando alguém se escusa a ajudar, não está sendo impedido pela culpa, mas pelo egoísmo, esse genitor insensível da indiferença pelo sofrimento dos outros, distanciando-se, na desdita em que se compraz, dos recursos eficientes para a aquisição da paz interior.

Todos os seres humanos, de uma ou de outra forma, carregam algumas culpas, inclusive aquelas que lhes foram impostas pelas tradições religiosas absurdas, que se compraziam em condenar ao invés de orientar a maneira eficiente de libertação dos equívocos em que se tombava.

Dessa forma, existem marcas psicológicas ancestrais que afligem, mas podem ser anuladas mediante o conhecimento da realidade e dos legítimos valores morais que são as regras de bem viver, exaradas no Evangelho de Jesus, e sintetizadas no Seu conceito sublime, que é não desejar nem fazer a outrem o que não se gostaria que lhe fosse feito.



A aceitação honesta do fenômeno culpa pela consciência constitui excelente aquisição emocional para o trabalho de diluição dos fatores que a geraram.

Uma análise sincera do acontecimento produz compreensão em torno da ocorrência do fato infeliz, levando-se em consideração as circunstâncias do momento, o estado emocional em que se encontrava o indivíduo, a sombra predominante...

O erro é sempre resultado do nível de responsabilidade imposta pela consciência. 

Quando se trata de algo planejado com objetivos perniciosos, certamente os danos produzidos são muito mais graves, transformando-se em conflito psicológico de ação demorada. 
No entanto, quando outros fatores imprevistos desencadeiam a atitude maléfica, é compreensível que a responsabilidade se apresente menor.

Em face disso, afirmou o Mestre de Nazaré: Mais se pedirá àquele que mais recebeu, estabelecendo que o conhecimento é fator predominante em relação à responsabilidade dos atos humanos.

A questão da culpa é tão relevante que, analisando o drama da mulher surpreendida em adultério, Jesus exarou o surpreendente conceito: ... E aquele que estiver sem culpa, que lhe atire a primeira pedra.

É compreensível que, seja qual for a forma como se deu a instalação da culpa, é sempre resultado da longa aprendizagem a que o Espírito se encontra submetido no compromisso da autoiluminação, transformando ignorância em conhecimento, instinto em discernimento lógico e em razão, primarismo em sabedoria...

Já constitui um passo significativo a sua identificação, que significa o começo da sua superação.

Nenhum recurso mais eficiente para a sua eliminação do que todo o bem que se pode fazer, porquanto, o auxílio ao próximo, à comunidade, a contribuição ao bem estar geral, proporcionam recuperação do equívoco de maneira judiciosa e edificante, resultando em fator de progresso geral. 

Isto porque, sempre que alguém cai, que se compromete, a sociedade com ele tomba, sendo natural que, ao elevar-se alguém, com ele a sociedade se erga.

O auxílio fraternal, portanto, é valioso contributo psicoterapêutico para a libertação de quaisquer transtornos emocionais, ao tempo em que constitui eficiente método pedagógico para a aquisição da harmonia interna com a consequente aprendizagem em torno dos objetivos relevantes da vida.

Sacrifica, pois, a comodidade disfarçada de conflito de culpa ou equivalente, e faze a tua parte no concerto terrestre, modificando as estruturas atuais do comportamento social e criando novas condições para o progresso geral.

A felicidade somente se instalará na Terra quando as criaturas humanas compreenderem que o auxílio recíproco é recurso precioso para o equilíbrio entre todos.

Enquanto houver segregação, discriminação, miséria de uns e excesso de outros, exorbitância de poder ou de fortuna em poucas mãos com a escassez na multidão, o sofrimento permanecerá como látego sobre o seu dorso, até o despertamento consciente e a mudança inevitável de conduta.


Aquele que dispõe dos recursos superiores da existência como saúde, beleza, fortuna, lar feliz, inteligência e conhecimento, não havendo feito o uso dignificante, retorna ao proscênio terrestre, em situação de carência, a fim de aprender aplicação de valores e solidariedade.

Nunca desconsideres o poder dos pequenos gestos de bondade e de amor que fazem muita falta entre os seres humanos.

Por mais insignificantes que pareçam, constituem notas musicais da grande sinfonia da vida vibrando no universo.

Toma parte na extraordinária orquestra do bem, contribuindo com o que possuas.



*Joanna de Ângelis - psicografia pelo médium Divaldo Pereira Franco.

                                                             


                                                                   

segunda-feira, 15 de junho de 2015

MINHA EXPERIÊNCIA NO UMBRAL

                                          
Se eu disser para vocês que o inferno existe, acreditem, pois eu estava mergulhado nele, de corpo e alma, num espaço sombrio e frio, bem interno do ser, dos pés à cabeça, sem tempo, sem luz, nem descanso e afogava-me, a cada segundo, num oceano de matéria viscosa que roubava até minha ilusória alegria…  
Naquele lugar não havia luz, somente nuvens cinza e chuvas com raios e trovões, gritos estridentes e desesperados, gemidos surdos, pedidos de socorro, lágrimas, desalento, tristeza e revolta…   Preciso descrever mais as cenas dantescas de animais que nos mastigavam e, em seguida, nos devoravam sem consumir nossos corpos; se é que posso dizer que aquilo, que sobrou de mim, era um corpo humano. queria fugir para bem longe dali, mas tudo em vão, quanto mais me debatia no fluido grudento, mais me afundava e, quando alcançava, de novo, a superfície apavorante, mãos e garras afiadas faziam-me submergir naquele líquido pastoso e mal cheiroso.  Dragões lançavam chamas de suas bocas sujas e nos queimavam, machucando e estilhaçando a pouca consciência que me restava da lembrança de minha estada no corpo físico, neste planeta azul.  Guardiões das trevas olhavam atentos seus presos e vigiavam todos os movimentos realizados naquele imenso espaço de sofrimentos, dores, lamentos, depressões, angústias e arrependimentos tardios…   O ar era ácido e provocava convulsões diversas.   Perguntava-me porque ali estava se nada fizera por merecer tão infeliz destino, depois de ser expulsa do corpo de carne através do uso maciço de drogas.   A dúvida assaltava-me os raros momentos de raciocínio menos desequilibrado e as crises de abstinência trancavam todas as portas que dariam acesso à saída daquele campo de penitência de espíritos rebeldes e viciados com eu.    Os filmes de horror que assisti, quando encarnada, estariam ainda muito distantes dos padecimentos, pânicos, pavores e temores que ficariam para sempre registrados na minha memória mental, os piores dias que vivi até hoje, como joguete e marionete de forças que me escravizavam o ser, debilitado, fraco, desprovido de energias, suja, carente e chorosa.   Não me lembrava do que acontecera comigo…  Quando o medo é maior que as necessidades básicas, a mente fica encarcerada num labirinto hipnótico e “torporizante” de emoções truncadas e desconectadas da realidade…   Assemelha-se a um pesadelo sem fim, sempre com final trágico e apavorante.  Quando conseguia conciliar um pequeno tempo de sono; era imediatamente desperta por seres que me insultavam e xingavam, acusavam-me de suicida maldita e jogavam-me lama misturada com pedras…  Insetos e anfíbios ajudavam a traçar o perfil horrendo dos anos que passei no umbral.  Preciso escrever estas palavras para nunca mais me esquecer:   “Com o fenômeno da morte, nós não vamos para o umbral, nós já estamos no umbral quando tentamos forjar as leis maiores da criação com nossas más intenções e tendências viciantes”.   Tudo fica registrado num diário mental que traça nosso destino futuro, no bem ou no mal.  O umbral não fora criado por Deus; ele é de autoria dos espíritos que necessitam de um autêntico e genuíno estágio educativo em zonas inferiores, onde poderão se depurar de suas construções aleijadas no campo dos sentimentos e dos pensamentos disformes, mal estruturados e mal conduzidos por nossa irresponsabilidade, de mãos dadas com a imensa ignorância que nos faz seres infelizes e distantes da tão sonhada paz de consciência.  Após alguns anos umbralinos…   Despertei numa tarde serena, num campo verdejante e calmo.   Não acreditava no que via, pois tudo, agora, parecia um sonho…   Percebi, ao longe, o canto de uma ave que insistia em acordar-me daquele pesadelo no qual já me acostumava a viver; a morrer todos os dias…  Seu canto era uma música que apaziguava meu coração e aguçava meus pensamentos na lembrança de como fui parar ali naquele campo gramado e repleto de árvores.   Consegui sentar-me na relva e ao olhar todo aquele espaço natural, deparei-me com milhares de outros seres como eu, nas mesmas condições de debilidade moral, usufruindo, agora, de um bem que não merecia, mas vivia!  Todos nós dormíamos e fomos despertos com música e preces em favor de todos os presentes…   A maioria era de jovens e adultos, poucos idosos e centenas de enfermeiros que olhavam atentos para nossos movimentos no gramado.   Com seus olhos serenos, projetavam em nós a mansidão e a paz tão esperadas por nossos corações enfermos, débeis e carentes de atenção, de afeto e carinho.  Alguém me tocava, de leve, os ombros e chamava-me pelo nome, como se me conhecesse há muito tempo.   Eu identifiquei aquela voz e “temia” olhar para trás e confirmar minha impressão auditiva – era Cazuza todo de branco, como lindo enfermeiro, de cabelos cortados bem curtos e estendia suas mãos para que eu levantasse, caminhasse e conversasse um pouco em sua companhia.  Não consegui me levantar, porque uma enxurrada de lágrimas vertia dos meus olhos, como nascente de rio descendo a montanha das dores que trazia no peito.   Meu ídolo ali estava resgatando e cuidando de sua fã, debilitada e muito carente.   Ele cantou pequena canção e tive a capacidade de avaliar o que Deus havia reservado para aqueles que feriam suas leis e buscavam consolo entre erros escabrosos e desconcertantes.  A misericórdia divina sempre conspira a nosso favor, nós desdenhamos do amor divino com nossas desatenções e desequilíbrios das emoções comprometedoras, que arranham e esmagam as mais puras sementes depositadas no ser imortal. aprendi palavras boas!  Somente agora enxergo que sou espírito e que a vida continua e precisa seguir o curso natural das existências, como na roda-gigante: hora estamos aqui no alto; hora estamos aí embaixo encarnados.   Daqui de cima, parece ser mais fácil compreender porque temos de respeitar as leis e descer num corpo físico – para, igualmente, quando aí estivermos, conquistarmos, pelo trabalho no bem, a lucidez que explica porque há a reencarnação, filha da justiça divina.  Após um tempo no campo reconfortante, fui reconduzida para um hospital onde me recupero até hoje dos traumas e cicatrizes que criei no corpo do perispírito.   As lesões que provoquei foram muito graves, passei por várias cirurgias espirituais e soube que minha próxima encarnação será dolorosa e expiarei asma, deficiência mental e tuberculose.   Mesmo assim, estou reunindo forças para estudar, pois sempre guardamos, no inconsciente, todos os aprendizados conquistados.   Reencarnarei numa comunidade carente no interior do Brasil e passarei por muitos reveses, para despertar em mim o valor da vida do espírito na pobreza e na doença crônica.  Peço orações e a caridade dos corações que já sabem o que fazem e para onde desejam chegar.   Invistam suas forças e energias espirituais em trabalhos de auxílio ao próximo e serão, naturalmente, felizes.   Obrigado por me aceitarem como necessitada que sou! Cássia Eller
*LAR DE FREI LUIZ   2ª FEIRA  11/05/2015  DEPENDÊNCIA QUÍMICA    MENSAGEM POR PSICOGRAFIA   Espírito: Cássia Eller  Médium: José Helenio.
                                                          

sábado, 13 de junho de 2015

O MONGE, O GATO E A LUA

                                                      
                                                                      


"O homem moderno perdeu o sentido da contemplação, de maravilhar-se diante das águas cristalinas do riacho, de encher-se de espanto face a um céu estrelado e de extasiar-se diante dos olhos brilhantes de uma criança que o olha interrogativa.

Não sabe o que é o frescor de uma tarde de outono e é incapaz de ficar sozinho, sem celular, internet, televisão e aparelho de som.

Ele tem medo de ouvir a voz que lhe vem de dentro, aquela que nunca mente, que nos aconselha, nos aplaude, nos julga e sempre nos acompanha. 


Essa pequena estória de meu irmão Waldemar Boff, que tenta pessoalmente viver no modo dos monges do deserto, nos traz de volta a nossa dimensão perdida. 
O que é profundamente verdadeiro só se deixa dizer bem, como atestam os sábios antigos, por pequenas estórias e raramente por conceitos. 
Às vezes quando imaginamos que nos perdemos, é então que nos encontramos. É o que esta estória nos quer comunicar: um desafio para todos.


“Era uma vez um eremita que vivia muito além das montanhas de Igazaim, bem ao sul do deserto de Acaman. Fazia bem 30 anos que para lá se recolhera.

Algumas cabras lhe davam o leite diário e um palmo de terra daquele vale fértil lhe dava o pão. 

Junto à cabana esgueiravam-se algumas ramas de videira. 
Durante o ano todo, sob as folhas de palmeira de cobertura, abelhas vinham fazer suas colmeias.

“Há 30 bons anos que por aqui vivo! …”, suspirou o monge Porfiro. “Há 30 bons anos! …”.

 E, sentado sobre uma pedra, o olhar perdido nas águas do regato que saltitavam entre os seixos, deteve-se neste pensamento por longas horas.
 “Há 30 bons anos e não me encontrei. Perdi-me para tudo e para todos, na esperança de me encontrar. Mas perdi-me irremediavelmente !”

Na manhã seguinte, antes de o sol nascer, de parco farnel aos ombros e semi-rotas sandálias aos pés, pôs-se a caminho das montanhas de Igazaim, após a reza pelos peregrinos. 

Ele sempre subia as montanhas, quando, sob forças estranhas, seu mundo interior ameaçava desabar. Ia visitar Abba Tebaíno, eremita mais provecto e mais sábio, pai de uma geração toda de homens do deserto. 
Vivia ele sob um grande penhasco, de onde se podia ver lá embaixo os trigais da aldeia de Icanaum.

“Abba, perdi-me para encontrar-me. Perdi-me, porém, irremediavelmente. 

Não sei quem sou, nem para que ou para quem sou. 
Perdi o melhor de mim mesmo, o meu próprio eu. 
Busquei a paz e a contemplação, mas luto com uma falange de fantasmas. 
Fiz tudo para merecer a paz. 
Olha meu corpo, retorcido com uma raiz, retalhado de tantos jejuns, cilícios e vigílias! … E aqui estou, roto e combalido, vencido pelo cansaço da procura.”

E dentro da noite, sob uma lua enorme, iluminando o perfil das montanhas, Abba Tebaíno, sentado à porta da gruta, ficou a escutar com ternura infinita as confidências do irmão Porfiro.

Depois, num destes intervalos onde as palavras somem e só fica a presença, um gatinho que já vivia há muitos anos com o Abba, veio se arrastando de mansinho até a seus pés descalços. 

Miou, lambeu-lhe a ponta reta do burel, acomodou-se e pôs-se, com grandes olhos de criança, a contemplar a lua que, como alma de justo, subia silenciosa aos céus.
E, depois de muito tempo, começou o Abba Tebaíno a falar com grande doçura:“Porfiro, meu filho querido, deves ser como o gato; ele nada busca para si mesmo, mas espera tudo de mim.

Toda a manhã aguarda ao meu lado um pedaço de côdea e um pouco de leite desta tigela secular. Depois, vem e passa o dia juntinho a mim, lambendo-me os pés machucados. 

Nada quer, nada busca, tudo espera. É disponibilidade. É entrega. 
Vive por viver, pura e simplesmente. Vive para o outro. É dom, é graça, é gratuidade. 
Aqui, junto a mim deitado, contempla inocente e ingênuo, arcaico como o ser, o milagre da lua que sobe, enorme e abençoada. 
Não se busca a si próprio, nem mesmo na vaidade íntima da auto-purificação ou na complacência da auto-realização. Ele se perdeu irremediavelmente, para mim e para a lua…É a condição de ele ser o que é e de encontrar-se.

E um silêncio profundo desceu sobre a boca do penhasco.



Na manhã seguinte, antes de o sol nascer, os dois eremitas cantaram os salmos das manhãs. Seus louvores ecoaram pelas montanhas e fizeram estremecer as fímbrias do universo. 
Depois, deram-se o ósculo da partida.

O irmão Porfiro, de parco farnel à costas e semi-rotas sandálias aos pés, retornou ao seu vale, ao sul do deserto de Acaman. 

Entendeu que para encontrar-se devia perder-se na mais pura e singela gratuidade.

Contam os moradores da aldeia próxima que, muitos anos depois, numa profunda e quieta noite de lua cheia, eles viram no céu um grande clarão. 

Era o monge Porfiro que subia, junto com a lua, à imensidão infinita daquele céu delirantemente faiscado de estrelas. 
Agora não precisava mais perder-se porque se havia definitivamente encontrado”.

*Leonardo Boff.
                                                    
                                                         


quinta-feira, 11 de junho de 2015

SEQUELAS





O sofrimento desempenha na Terra uma ação relevante, qual seja a de contribuir para o desenvolvimento intelecto-moral dos seres.

Nas esferas primárias expressa-se no campo dos instintos, desenhando as primeiras sensações e emoções nervosas.

No ser humano, não tendo caráter punitivo, é processo de desgaste dos atavismos que o retém na retaguarda do progresso.

Graças à sua ação, alteram-se as aparências e desvelam-se os mecanismos internos, que se exteriorizam do Espírito em conquistas necessárias.

Não obstante, o sofrimento nem sempre consegue levar, de imediato, à meta aquele que lhe experimenta o concurso.

Nos indivíduos rebeldes, ainda mais vinculados à sensação, a sua presença causa revolta, em empurrando-os para a animosidadede, o ressentimento, o ódio, o desejo de autodestruição.

Naqueloutros de compleição emocional tímida resulta em processo de resignação estagnaria, sem produzir a renovação, que induz à luta por superá-lo.

Não obstante, existem muitos que o recebem de maneira dinâmica, estimulante, por compreenderem que é uma sequela de atos infelizes que ficaram no passado, ou de processos naturais do mecanismo evolutivo.

Entre os primeiros, as sequelas da rebeldia sistemática são: maior agudeza das aflições, continuidade dos transtornos, ausência de pausas refazentes. 

Isto porque, bloqueados neles os centros do discernimento, intoxicam-se com as próprias energias nefastas, ampliando a área e o tempo do processo-dor.

Nos segundos, a acomodação, de alguma forma, a revolta surda que conduz à submissão, de maneira alguma trabalham para a renovação, gerando sequelas de parasitismo e quase inutilidade evolutiva.

Somente quando luz o entendimento das suas causas é que sequelas são: conquistas de harmonia íntima, inteira moral, humildade legítima diante das Leis da Vida.


Portadores de enfermidades degenerativas que resvalam pelas rampas do desespero, da consciência de culpa, do recalcitrar ante o aguilhão, partem do corpo com as sequelas correspondentes impressas nos tecidos sutis da alma, no campo perispiritual, continuando a experimentar mais acentuadas aflições, até que, por exaustão, se resolvem à mudança mental e à diluição dos registros gravados.

Nos processos referentes aos transtornos psicológicos, sequelas idênticas surgem, atraindo mais ao convívio emocional os Espíritos inimigos que os atormentaram, agora prosseguindo em batalha mais inclemente.

Desse modo, em todos quantos desencarnam na aceitação parasitária das ocorrências aflitivas, as sequelas permanecem assinalando esses pacientes por largo tempo, já que não lutaram por sobrepor-se aos testemunhos da purificação.

Aqueles, entretanto, que se trabalharam emocional e espiritualmente, têm após o decesso tumular, como sequelas, as ausências das impressões perturbadoras, das dores que ficaram na roupagem em diluição.

Ninguém transita pelos patamares do crescimento íntimo sem o concurso do sofrimento, que proporciona, quando bem recebido, o direcionamento das aspirações para Deus e para o Bem, para a harmonia íntima, para a atitude de respeito e amor pela Vida.

O sofrimento surge, em muitos casos, como coroa de glória, que numerosos Espíritos nobres solicitam e recebem, tornando-se protótipos de perfeita sintonia com Deus e por amor à Humanidade.

Quando o sofrimento é aceito como força dinâmica, faculta o êxtase dos santos, dos artistas, dos pensadores, dos cientistas, porque afrouxa os laços materiais que retém o Espírito, permitindo-lhe pairar nas regiões de onde procede, haurindo ali mais força e energia para ensinar autossuperação e felicidade.

Quando Jesus proclamou que são bem-aventurados os aflitos, é evidente que se referiu somente àqueles cuja aflição não produza sequelas devastadoras que dilaceram a alma.

Aflitos e sofridos, sim, mas nem todos, em face das sequelas que produzam...



*Joanna de Ângelis - Psicografia de Divaldo Pereira Franco.

                                                        


terça-feira, 9 de junho de 2015

DEPRESSÃO


                                                        

Na raiz psicológica do Transtorno Depressivo ou de comportamento afetivo, encontra-se uma insatisfação do ser em relação a si mesmo, que não foi solucionada. 
Predomina no Self um conflito resultante da frustração de desejos não realizados, nos quais impulsos agressivos se rebelaram ferindo as estruturas do ego que imerge em surda revolta, silenciando os anseios e ignorando a realidade. 
Os seus anelos e prazeres disso resultantes, porque não atendidos, convertem-se em melancolia, que se expressa em forma de desinteresse pela vida e pelos seus valiosos contributos, experienciando gozos masoquistas, a que se permite em fuga espetacular do mundo que considera hostil, por lhe não haver atendido as exigências.
Sem dúvida, outros conflitos se apresentam, e que podem derivar-se de disfunções reais ou imaginárias da libido, na comunhão sexual, produzindo medos e surdas revoltas que amarguram o paciente, especialmente quando considera como essencial na existência o prazer do sexo, no qual se motiva para as conquistas que lhe parecem fundamentais.
Vivendo em uma sociedade eminentemente erótica, estimulada por um contínuo bombardeio de imagens sonoras e visuais de significado agressivo, trabalhadas especificamente para atender as paixões sensuais até a exaustão, não encontra outro motivo ou significado existencial, exceto quando o hedonismo o toma e o leva aos extremos arriscados e antinaturais do gozo exorbitante.
Ao lado desse fator, que deflui dos eventos da vida, o luto ou perda, como bem analisou Sigmund Freud, faz-se responsável por uma alta cifra de ocorrências depressivas, em episódios esparsos ou contínuos, assim como em surtos que atiram os incautos no fosso do abandono de si mesmo. 
Esse sentimento de luto ou perda é inevitável, por ferir o Self ante a ocorrência da morte, sempre considerada inusitada ou detestada, arrebatando a presença física de um ser amado, ou geradora de consciência de culpa, quando sucede imprevista, sem chance de apaziguamento de inimizades que se arrastaram por largo período, ou ainda, por atos que não foram bem elaborados e deixaram arrependimento, agora convertidos em conflito punitivo. 
Ainda se manifesta como efeito de outras perdas, como a do trabalho profissional, que atira o indivíduo ao abismo da incerteza para atender a família, para atender-se, para viver com segurança no meio social; outras vezes, a perda de algum afeto que preferiu seguir adiante, sem dar prosseguimento à vinculação até então mantida, abrindo espaço para a solidão e a instalação de conflito de inferioridade; sob outro aspecto ainda, a perda de um objeto de valor estimativo ou monetário, produzindo prejuízo de uma ou de outra natureza...
Qualquer tipo de perda produz impacto aflitivo, perturbador, como é natural. 
Demora-se algum tempo, que não deve exceder a seis ou oito semanas, o que constitui um fenômeno emocional saudável. 
No entanto, quando se prolonga, agravando-se com o passar do tempo, torna-se patológico, exigindo terapêutica bem elaborada.
Pode-se, no entanto, evitar as conseqüências enfermiças da perda, mediante atitudes corretas e preventivas.
Terapia profilática eficaz, imediata, propiciadora de segurança e de bem-estar, é a ação que torna o indivíduo identificado com os seus sentimentos, que deve exteriorizar com freqüência e naturalidade em relação a todos aqueles que constituem o clã ou fazem parte da sua afetividade.
Repetem-se as oportunidades desperdiçadas, nas quais se pode dizer aos familiares quanto eles são importantes, quanto são amados, explicitar aos amigos o valor que lhes atribui, aos conhecidos o significado que eles tem em relação à sua vida... 
Normalmente se adiam esses sentimentos dignificadores e de alta magnitude, que não apenas felicitam aqueles que os exteriorizam, mas também aqueloutros, aos quais são dirigidos, gerando ambiente de simpatia e de cordialidade. 
Nunca, pois, se devem postergar essas saudáveis e verdadeiras manifestações da afetividade, a fim de serem evitados futuros transtornos de comportamento, quando a culpa pretenda instalar-se em forma de arrependimento pelo não dito, pelo não feito, mas sobretudo pelo mal que foi dito, pela atitude infeliz do momento perturbador... 
Esse tipo de evento de vida - a agressão externada, o bem não retribuído, a afeição não enunciada - pode ser evitado através dos comportamentos liberativos das emoções superiores.
Muitos outros choques externos como acidentes, agressões perversas, traumatismos cranianos contribuem para o surgimento do transtorno da afetividade, por influenciarem os neurônios localizados no tronco cerebral próximo ao campo onde o cérebro se junta à medula espinhal. Nessa área, duas regiões específicas enviam sinais a outras da câmara cerebral: a rafe, encarregada da produção da serotonina, e o locus coeruleus, que produz a noradrenalina, sofrendo os efeitos calamitosos dessas ocorrências, assim como de outras, desarmonizam a sua atividade na produção dessas valiosas substâncias que se encarregam de manter a afetividade, propiciando a instalação dos transtornos depressivos.
Procedem, também, dos eventos de natureza perinatal, quando o Self, em fixação no conjunto celular, experienciou a amargura da mãe que não desejava o filho, do pai violento, dos familiares irresponsáveis, das pelejas domésticas, da insegurança no processo da gestação, produzindo sulcos profundos que se irão manifestar mais tarde como traumas, conflitos, transtornos de comportamento...
A inevitável transferência de dramas e tragédias de uma para outra existência carnal, insculpidos que se encontram nos refolhos do Eu profundo- o Espírito viajor de multifários renascimentos carnais - ressumam como conflito avassalador, a princípio em manifestação de melancolia, de abandono de si mesmo, de desconsideração pelos próprios valores, de perda da auto-estima...
Pode-se viver de alguma forma sem a afeição de outrem, sem alguns relacionamentos mais excitantes, no entanto, quando degenera o intercâmbio entre o Self e o ego o indivíduo perde o direcionamento das suas aspirações e entrega-se às injunções conflitivas, tombando, não poucas vezes, no transtorno depressivo.
Esse ressumar de arquétipos profundos, em forma de imagens arquetípicas punitivas, aguarda os fatores que se apresentam nos eventos de vida para manifestar-se, amargurando o ser, que se sente desprotegido e infeliz.
Incursa a sua consciência em culpa de qualquer natureza, elabora clima psíquico para a sintonia com outras fora do corpo somático, que se sentem dilapidadas, e sendo incapazes de perdoar ou de refazer o próprio caminho, aspiram pelo desforço covarde e insano, atirando-se em litígio feroz no campo de batalha mental, produzindo sórdidos processos de parasitose espiritual, de obsessões perversas.
Quando renasce o Self assinalado pelas heranças pregressas, no momento em que se dá a fecundação, mediante o mediador plástico ou perispírito, imprimem-se, nas primeiras células, os fatores necessários à evolução do ser, que oportunamente se manifestarão, no caso de culpa e mágoa, de desrespeito por si mesmo, de autocídio e outros desmandos, em forma de depressão. 
A hereditariedade, portanto, jamais descartada, é resultado do processo de evolução que conduz o infrator ao clima e à paisagem onde é convidado a reparar, a conviver consigo mesmo, a recuperar-se...
Pacientes predispostos por hereditariedade à incursão no fosso da depressão, carregam graves procedimentos negativos de experiências remotas ou próximas, que se fixaram no Self, experimentando o impositivo de liberação dos traumas que permanecem desafiadores, aguardando solução que a psicoterapia irá proporcionar.
Uma catarse bem orientada eliminará da consciência a culpa e abrirá espaços para a instalação do otimismo, da auto-estima, graças aos quais os valores reais do ser emergem, convidando-o à valorização de si mesmo, na conquista de novos desafios que a saúde emocional lhe irá facultar, emulando-o para a individuação, para a conquista do numinoso.
Em razão do largo processo da evolução, todos os seres conduzem reminiscências que necessitam ser trabalhadas incessantemente, liberando-se daquelas que se apresentam como melancolia, insegurança e receios infundados, desestabilizando-os. 
Ao mesmo tempo, estimulando-se a novas conquistas, enfrentando as dificuldades que o promovem quando vencidas, descobre todo o potencial de valores de que é portador e que necessitam ser despertados para as vivências enriquecedoras.
O hábito saudável da boa leitura, da oração, em convivência e sintonia com o Psiquismo Divino, dos atos de beneficência e de amor, do relacionamento fraternal e da conversação edificante constituem psicoterapia profilática que deverá fazer parte da agenda diária de todas as pessoas.

*FRANCO, Divaldo Pereira. Triunfo Pessoal. Pelo Espírito Joanna de Ângelis.