Total de visualizações de página

segunda-feira, 8 de abril de 2013

AÇÃO E REAÇÃO OU CAUSA E EFEITO?


NA ANÁLISE DA DOR, DEVEMOS ADMITIR QUE ALGUÉM ESTEJA SOFRENDO “PELA CAUSA” QUE ABRAÇOU, COM VISTAS AO SEU PROGRESSO ESPIRITUAL, E NÃO “POR CAUSA” DE UMA FALTA QUALQUER.
O princípio de “Ação e Reação”, conhecido como a Terceira Lei de Newton (Isaac Newton, Físico e Matemático Inglês – 1642-1727), tem o seguinte enunciado: A toda ação corresponde uma reação de igual intensidade e sentido oposto.
 De forma ortodoxa, e indiscriminadamente, esse princípio tem sido aplicado para justificar a razão do sofrimento do Espírito reencarnado em qualquer situação.
 Oportuno lembrar que o Codificador não usou desse raciocínio, não fez uso da Lei de Newton, e, sim, do axioma: não há efeito sem causa. Uma leitura superficial dos dois princípios poderá nos levar a conclusões erradas. Apliquemos, no caso do cego de nascença, os dois princípios, um de cada vez, e o leitor entenderá do que estamos falando.
Adotando o princípio da “Lei de Ação e Reação” (a toda ação corresponde uma reação de igual intensidade e sentido oposto), a situação do cego de Siloé deveria ser uma reação em sentido oposto a uma ação, no caso negativa. Teria cometido uma infração às Leis Morais do Criador. Mas vimos que não era o caso. Dessa forma, nem sempre podemos concluir que a dor seja uma reação.
O Mentor de Chico Xavier, Emmanuel, alerta-nos que é “imperioso interpretar a dor por mais altos padrões de entendimento. Ninguém sofre, de um modo ou de outro, tão-somente para resgatar o preço de alguma coisa. Sofre-se também angariando os recursos preciosos para obtê-la (…)”. Com este entendimento é que devemos interpretar a situação do cego de nascença, que aceitou aquela condição para conquistar uma posição espiritual mais elevada. Se a dor corrige o passado e nos adverte no presente, também poderá estar construindo o nosso futuro. É a dor a serviço da evolução de todos nós, Espíritos imperfeitos.
Agora, aplicando o princípio não há efeito sem causa, à mesma situação, não resta dúvida de que encontramos no sofrimento daquele cego uma causa, que foi a sua avidez pelo progresso, seu desprendimento e amor à causa do Cristo. Permitiu-se nascer privado da visão para cooperar com a causa do Messias. A sua dor não era uma reação a nada, era a própria ação. Sofreu “pela causa” e não “por causa”.
Como já dissemos, Allan Kardec adotou o princípio de causa e efeito e não de ação e reação para estudar e explicar as razões da dor e das aflições. Conhecia, sem sombra de dúvida, a Terceira Lei de Newton, mas não a usou na apreciação das coisas espirituais. Será que o “bom senso encarnado” percebeu que a lei do Físico Inglês não se prestava integralmente para a compreensão e esclarecimentos sobre as aflições? Entendemos que sim. O Mestre de Lyon trilhou com sabedoria, sem dogmatismo e com bom senso. 

Acompanhemo-lo neste texto:
“Os sofrimentos devidos a causas anteriores à existência presente, como os que se originam de culpas atuais, são muitas vezes a conseqüência da falta cometida, isto é, o homem, pela ação de uma rigorosa justiça distributiva, sofre o que fez sofrer aos outros.

 Se foi duro e desumano, poderá ser a seu turno tratado duramente e com desumanidade; se foi orgulhoso, poderá nascer em humilde condição; se foi avaro, egoísta, ou se fez mau uso de suas riquezas, poderá ver-se privado do necessário; se foi mau filho, poderá sofrer pelo procedimento de seus filhos, etc.”
Observemos que teve o cuidado de alertar o seu leitor escrevendo as expressões “muitas vezes” e “poderá”, em vários momentos, não afirmando categoricamente que a dor seja sempre uma punição. Continuemos.
“Não há crer, no entanto, que todo sofrimento suportado neste mundo denote a existência de uma determinada falta. Muitas vezes, são simples provas buscadas pelo Espírito para concluir a sua depuração e ativar o seu progresso. Assim, a expiação serve sempre de prova, mas nem sempre a prova é uma expiação. 

Provas e expiações, todavia, são sempre sinais de relativa inferioridade, porquanto o que é perfeito não precisa ser provado. 
Pode, pois, um Espírito haver chegado a certo grau de elevação e, nada obstante, desejoso de adiantar-se mais, solicitar uma missão, uma tarefa a executar, pela qual tanto mais recompensado será, se sair vitorioso, quanto mais rude haja sido a luta. Tais são, especialmente, essas pessoas de instintos naturalmente bons, de alma elevada, de nobres sentimentos inatos, que parece nada de mau haverem trazido de suas precedentes existências e que sofrem, com resignação toda cristã, as maiores dores, somente pedindo a Deus que as possam suportar sem murmurar.”
Como conclusão, o Espiritismo não nos autoriza generalizar o sofrimento como sendo uma punição, conseqüência de erros cometidos. Léon Denis, um dos continuadores de Kardec, que muito bem compreendeu a verdadeira missão da dor, ensina: “Todos aqueles que sofrem não são forçosamente culpados em vida de expiação. Muitos são Espíritos ávidos de progresso, que escolheram vidas penosas e de labor para colherem o benefício moral que anda ligado a toda pena sofrida.” E mais à frente: “Às almas fracas, a doença ensina a paciência, a sabedoria, o governo de si mesmas. Às almas fortes, pode oferecer compensações de ideal, deixando ao Espírito o livre vôo de suas aspirações até ao ponto de esquecer os sofrimentos físicos”.
A causa do sofrimento não somente está no passado ou no presente, mas também no futuro. A dor-evolução não está corrigindo erros cometidos, mas construindo um porvir venturoso para o Espírito em evolução. 

Sabemos que muitos deles reencarnam em missão na Terra, com o objetivo de impulsionar o nosso progresso moral e científico. Tais Espíritos aceitam resignados, até mesmo com certa alegria, as adversidades e infortúnios de tal existência, por saberem que estão se adiantando na escala evolutiva (O Livro dos Espíritos, questão 178). Logo, sofrem as dores da evolução, aquela que vem de fora para dentro, ao contrário da dor-expiação, que vem de dentro para fora, pois é purgação.
A reencarnação não é um processo punitivo; é manifestação da misericórdia divina. Não reencarnamos somente por sermos devedores, mas, acima de tudo, porque a vida na matéria significa oportunidade de crescimento em todas as latitudes espirituais. A evolução é lei divina e, por isso, imperiosa. Sofremos, vez ou outra, pela causa que abraçamos e não somente por causa de alguma infringência às leis divinas.
Na apreciação das causas das dores e aflições por que passamos, nem sempre é correto adotar o princípio de “ação e reação”, concluindo que a dor seja sempre uma reação oposta a uma ação ilícita. Os Espíritos Superiores nos ensinam que para todo efeito existe uma causa, mas não asseguram que o sofrimento seja sempre um efeito, pois no caso do cego de nascença, ele era isento de culpa. A causa da sua desdita existia sim! Estava no seu desejo de cooperar com a causa do Messias de Deus.
A despeito da nossa dificuldade de andar de braços com a dor, na condição de amiga, insistindo em nos conduzir aos píncaros da glória espiritual, esforcemo-nos para compreender, à luz da fé racional que o Espiritismo nos trouxe, a exortação de Jesus no Sermão do Monte, consolando os sofredores: “Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados”.
Waldehir Bezerra de Almeida – “Revista Internacional de Espiritismo” – Janeiro/2001 – Págs. 535/536.



Nenhum comentário:

Postar um comentário